Acho que todo mundo, quando era criança, ouviu aquela história: se o vento gelado soprar enquanto estiver fazendo uma careta, vai ficar assim pra sempre.
Eu acreditava nisso.
Mas mesmo assim, naquela época, quando eu tinha tardes quentes e compridas a disposição, sempre que o vento soprava forte e gélido - e isso não era incomum mesmo em Cuiabá, já que eu morava no 11º andar - a careta vinha. Involuntariamente. Os cachinhos atrapalhavam a visão e a minha primeira reação era cerrar as sobrancelhas, inflar as bochechas...
Mas aí, subtamente eu me lembrava: tinha muito medo de que, se o vento passasse, ficasse carrancuda pra sempre. Tratava de estampar logo um sorriso na cara, ou uma expressão feliz qualquer. Imediatamente.
Esse gesto, pra mim, significa muito mais do que um sorriso forçado. Sem nem imaginar, por conta de uma superstição infantil, estava firmando um compromisso comigo mesma: era uma jura à felicidade mesmo diante de futuros e incertos desconfortos e obstáculos.
Afinal de contas, que é um ventinho gelado ante a força de uma tarde escaldante?
