23.9.09

Um pacto com a felicidade.

Acho que todo mundo, quando era criança, ouviu aquela história: se o vento gelado soprar enquanto estiver fazendo uma careta, vai ficar assim pra sempre.

Eu acreditava nisso.

Mas mesmo assim, naquela época, quando eu tinha tardes quentes e compridas a disposição, sempre que o vento soprava forte e gélido - e isso não era incomum mesmo em Cuiabá, já que eu morava no 11º andar - a careta vinha. Involuntariamente. Os cachinhos atrapalhavam a visão e a minha primeira reação era cerrar as sobrancelhas, inflar as bochechas...

Mas aí, subtamente eu me lembrava: tinha muito medo de que, se o vento passasse, ficasse carrancuda pra sempre. Tratava de estampar logo um sorriso na cara, ou uma expressão feliz qualquer. Imediatamente.

Esse gesto, pra mim, significa muito mais do que um sorriso forçado. Sem nem imaginar, por conta de uma superstição infantil, estava firmando um compromisso comigo mesma: era uma jura à felicidade mesmo diante de futuros e incertos desconfortos e obstáculos.

Afinal de contas, que é um ventinho gelado ante a força de uma tarde escaldante?

19.9.09

Mas se Deus é o luar e o sol, para que lhe chamo Deus?

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele, então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar.

Fernando Pessoa.

Eu sei o que é isso.

A gente pensa que esse dia nunca vai chegar. A gente pensa que os amigos que fizemos lá, na infância, na adolescência, nos acompanharão até a velhice.

Mas depois, quando cada um segue seu rumo, sua vida, descobrimos que não é bem assim. A convivência fica restrita as férias e não temos mais piadas internas.

Não sei se é assim com todo mundo, mas nada disso me impede de continuar amando. Sentir saudade sempre foi um sentimento crônico pra mim. Meus primos, por exemplo, passaram anos morando na minha casa e depois, simplesmente passaram no vestibular e se mudaram pro Amazonas. Uma das minhas melhores amigas nunca foi da mesma sala que eu, nunca tivemos tempo de passar intervalos juntas, e o email é a nossa salvação.

Mas sabe por que todos eles continuam sendo importantes pra mim? Porque eu sei amar de longe. Eu sei me alegrar de ouvir falar. Eu sei torcer por algo que eu nem tô vendo.

As vezes eu gostaria que meus braços pudessem alcançar todos eles - onde quer que eles estejam - só pra eu dar um abraço de duas horas e meia. Ahh, se meus braços fossem proporcionais as distâncias, e os abraços proporcionais a saudade...

6.9.09

Constância.

As coisas mudam, ponto.

E mudam o tempo todo, em todos os lugares. Até dentro da gente.

Muda o ambiente a nossa volta, mudam as situações, mudam nossos objetivos, mudam alguns de nossos valores/juízos, nossas opiniões/idéias, mudam as companhias....

Não sou capaz de citar nada que não tenha mudado de algum modo. Nada do que eu vi na vida, nenhuma experiência que tive, nada que pude observar por muito tempo... Nada é constante, nunca.

Basta olhar pra si mesmo há alguns meses atrás. Quantas coisas mudaram? crescemos e mudamos constantemente. Diariamente, até. A cada minuto, dentro de nós, deixa de existir uma lagarta, um casulo... E surge uma borboleta.

Mas como não poderia deixar de ser, existem exceções para essa 'regra': são os laços. Laços que foram tão bem amarrados em algum momento do passado, que se tornaram impossíveis de se desfazer. É o nosso chão, a nossa certeza, é o nosso 'ter pra onde voltar e pra onde ir', sempre. São os braços sempre abertos, as mãos sempre estendidas...

Muito me orgulha constatar que, mesmo depois de tanta coisa ter mudado, mesmo depois de tantas transformações - no mundo ou dentro de mim - algumas coisas permanecem intactas.

Mostra que um dia eu construi elos fortes, amizades sólidas, amores verdadeiros...

São as MINHAS constantes. É aquilo que não muda nunca, mesmo com todas as voltas desse mundo maluco...